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  Flores do Jardim de Agostinho   
 

    
 Prefácio

     Aurelius Augustinus, mais conhecido como Santo Agostinho, viveu de 354 a 430. Foi um verdadeiro Pai da Igreja – no sentido de 1. Coríntios 4.15: gerou filhos com o evangelho. Agostinho pertence a toda a cristandade. Com seus escritos, enraizados nas Escrituras Sagradas, ele anuncia Jesus Cristo, o Senhor da Igreja. Anuncia que a salvação acontece pela graça de Deus. Sempre. É o que vale para nós, hoje.

     Apresentamos neste livrinho uma coleção de palavras desse importante teólogo baseadas numa coleçãom latina, já quase centenária, destinada a ser meditada dia após dia, no decorrer de um ano. Julgamos que nenhuma geração seja capaz de viver só dos frutos que ela mesma colhe no pomar do povo de Deus. Há também uma boa tradição, fiel aos fundamentos bíblicos, vinda de tempos remotos, que nos ajuda a entender o nosso próprio presente num horizonte mais amplo. Assim, ao lermos os pensamentos de Agostinho, poderemos fazer a felicitante descoberta que a comunhão dos santos não compreende só o recorte da história representada por nosso presente, mas que inclui incontáveis testemunhas do passado, cuja voz faremos bem em ouvir.

     No final do livro, o leitor encontrará um breve histórico do seu surgimento, bem como algumas reflexões sobre a vida e a obra de Aurélio Agostinho. Recomendamos a leitura deste pós-escrito, pois ele ajudará a entender o ambiente em que as flores do jardim, reunidas neste livro, cresceram. Que o Senhor abençoe este testemunho do passado a todos os leitores!

 

Janeiro

1. “Livra-me do homem mau”, ora o salmista (salmo 140.1). Talvez penses em algum ladrão e, quando oras, ores com a intenção de que Deus te liberte deste ou daquele inimigo teu. Tu mesmo és o homem mau. Quando Deus tiver te libertado do homem mau que tu mesmo és, nada te prejudicará, independente de quem quer que seja esse outro homem mau. Que Deus te liberte de ti!

2. A quem temerá minha alma, na qual Deus habita?

3. Para mim, toda abundância que não é Deus, é pobreza.

4. Há uma alegria que não é concedida aos ateus mas apenas aos que teservem sem aspirar recompensa, cuja alegria és tu mesmo. Essa é a vida bem-aventurada: alegrar-se para ti, por causa de ti. Outra bem-aventurança não existe (Confissões 10.22).

5. Fomos carimbadospor Deus, somos moedas extraviadas do seu tesouro. Por nosso erro foi apagado o que em nós fora impresso. Veio aquele que restituiria a imagem, já que ele próprio a tinha criado. Ele também busca a sua moeda, assim como César busca a dele. Por isso diz: “Devolvei a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. A César, as moedas. A Deus, a vós mesmos.

6. Deus te criou como ser vivo racional (latim: rationale animal), colocou-te acima dos animais, formou-te conforme a sua imagem. Valoriza, portanto, a porção racional. Usa teus olhos como ser humano. Observa, com atenção, o céu e a terra, os ornamentos do céu, a fecundidade da terra, a força das sementes, a ordem dos tempos. Fica de olho nos fatos e busca aquele que os criou (latim: intende facta e quaere factorem). Olha para aquilo que enxergas e busca o que não enxergas. Crê naquele que não vês, por causa daquilo que vês. E para que não penses que é o meu discurso que te induziria a fazê-lo, ouve o apóstolo, que diz: “Os atributos invisíveis de Deus claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas” (Romanos 1.20).

7. Vive pelo crer, e passarás a ver. A visão, na pátria celeste, não alegrará a quem a fé não consolar no caminho. Tudo que precisamos fazer neste nosso caminho é sanarmos os olhos do coração (Efésios 1.18) a fim de que vejamos a Deus.

8. Tu estiveste comigo, ó Deus, mas eu não estive contigo; aí tu chamaste, gritaste, e quebraste o encanto de minha surdez, relampejaste, luziste, e afugentaste a minha cegueira (Confissões 10.27).

9. O que a razão humana não descobre, a fé o alcança, e onde a razão humana falha, a fé é bem sucedida. Onde a razão falhou, aí a fé edifica.

10. Observai, antes de tudo, o seguinte:Não vos deixeis perturbar por trechos das Sagradas Escrituras que ainda não compreendestes, e não vos deixeis inflar pelo que compreendeis. Distingui antes, com respeito, o que não entendeis. e guardai, com amor, o que passastes a entender.

11. Não sejas vaidosa, alma minha. Não permitas que o ouvido do teu coração seja atordoado pelos ruídos de tua vaidade. (Confissões 4.10).

12. Não creiam os maus que Deus não seja onipotente, por eles fazerem muitas coisas contrárias à sua vontade. Enquanto eles fazem o que ele não quer, ele faz com eles o que ele mesmo quer. Portanto, de nenhum modo mudam ou superam a vontade do Onipotente. Pois assim como os maus usam mal as boas obras de Deus, assim o bom Deus usa bem as más obras deles, para que a vontade do Onipotente não seja superada por coisa alguma.

13. Não é possível que de mim mesmo nasça minha salvação (latim: a me mihi salus esse non potest).

14. Todos os maus cristãos confessam, com suas palavras, que Cristo se tornou homem (Christum in carne venisse), mas negam-no por seus feitos. Juntai a fé reta à vida reta, de modo que confesseis que Cristo veio a ser homem, pronunciando a verdade com vossas palavras e pelas ações do vosso bem-viver.

15. Dá o que ordenas, ó Deus, e ordena o que queres. (Confissões 10.29).

16. Abandona todos os amores. O que criou todas as coisas é melhor do que todas elas e é mais belo do que todas elas. Quem fez as coisas fortes, é mais forte; quem fez as grandes, é maior. Tudo o que possas amar, ele o será para ti. Aprende a amar na criatura o Criador, nas coisas feitas o que as fez, assim que não te prenda o que foi feito por ele, e percas aquele por quem tu mesmo foste feito.

17. Graças sejam dadas a Deus porque o que não pode ser dito de forma adequada, pode ser crido com fidelidade.

18. Ó Senhor, quando tu mesmo és nossa firmeza, então é firmeza de verdade, quando, porém, é nossa firmeza própria, então é fraqueza.

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